No ano em que o mundo assistiu perplexo a um vírus refrear planos e subverter verdades consolidadas, especular previsões para o futuro nunca foi tão incerto e, ao mesmo tempo, tão necessário. Dar uma pista de por que trilhos se encaminham os hábitos de consumo e as necessidades mais flagrantes dos consumidores – em alimentos, bebidas e hospitalidade – após alguns meses de suspensão parcial da vida cotidiana como ela vinha transcorrendo nas últimas décadas. Após muito pesquisar, analisar e interpretar tendências e movimentos de consumo mundo afora, intuímos, por exemplo,  como as pessoas buscarão experiências que se alinhem com suas próprias missões pessoais, seja por meio de ativismo, diálogo aberto e honesto, pensamento sustentável de longo prazo ou fugas experienciais. Tudo isso, é claro, sem esquecer da própria segurança ante a uma pandemia que ainda está longe de bater em retirada. 

Bebidas

A saúde dos consumidores e do planeta agora domina a categoria de bebidas. Em termos de embalagens, a sustentabilidade está mais em pauta do que nunca, com marcas estreantes inovando com garrafas biodegradáveis ​​feitas de materiais naturais. O desenvolvimento de produtos agora se preocupa em reduzir a pegada de carbono de itens muito populares, como o café. No mercado de álcool, com consumidores buscando variedades menos óbvias e de baixo teor alcoólico, observa-se o crescimento de novos aperitivos e destilados que desafiam o segmento. Enquanto isso, a tecnologia amplia a experiência dos enófilos com novas camadas de personalização em torno das combinações de vinhos.

1. A nova onda dos aperitivos

O aperitivo tradicional está sendo reinventado para uma uma cultura de consumo mais lenta e pautada por relativa moderação. Uma pesquisa de 2019 da International Wines and Spirits Record mostra que 65% dos consumidores de álcool da geração Y no Reino Unido estão tentando, ou tentaram, reduzir a ingestão de álcool. Enquanto isso, a demanda por coquetéis do tipo spritz, por exemplo, com teor alcoólico mais baixo, impulsionaram as vendas globais do Grupo Campari em 9,5% no primeiro trimestre de 2019, de acordo com a empresa. Lançada pela Seedlip, a emergente Æcorn Aperitifs oferece aperitivos sem álcool para ser combinados com comida. Ainda nesta seara, a californiana Haus está modernizando a categoria  com um lançamento de baixo teor alcoólico. “A cultura de aperitivo europeia tem todas as características que a geração de bebedores americanos de hoje deseja. É mais descontraído, são pessoas formando conexões em vez de apenas festejar por festejar”, diz Helena Price Hambrecht, cofundadora e CEO da Haus.

Æcorn Aperitifs

2. Garrafas Bio 

À medida que os consumidores ficam mais informados sobre os resíduos das bebidas engarrafadas, as marcas respondem com uma série de inovações nos materiais, que envolvem embalagens práticas e biodegradáveis. A britânica Earlybirds é uma bebida de café da manhã plant-based e sem aditivos químicos embalada em uma garrafa feita de cana-de-açúcar. A presença da biomassa significa que ela é totalmente compostável e biodegradável em apenas 12 semanas.

Earlybirds

Já a da americana Cove – que se intitula a primeira marca de água envasada com material totalmente biodegradável – é feita de PHA (polihidroxialcanoato) e se decompõe em dióxido de carbono, água e matéria orgânica após cerca de cinco anos em qualquer situação, desde a terra firme até os oceanos. O frasco pode ser reutilizado por seis meses.

Cove

3. Destilados pós-categoria

Uma série de destilarias iniciantes estão desafiando as categorias e rejeitam algumas regras e regulamentos tradicionais de fabricação de bebidas alcoólicas. A britânica Rebel Rabbet é uma delas. A marca criou três novos destilados, a trilogia Exile Spirits, que fundem técnicas e sabores. “Nós nos concentramos em nosso perfil, não nos conformarmos com definições relativamente novas da indústria que determinam o que um destilado deve ser’, explica Matt McGivern, cofundador da Rebel Rabbet.

Rebel Rabbet

Com o mesmo espírito, a Empírico Spirits, destilaria em Copenhagen fundada por ex-chefs do Noma, está promovendo uma série de experiências com destilados para criar licores completamente novos. Já a japonesa Fukano está testando os limites de classificação ao aplicar técnicas de envelhecimento de uísque para um destilado de arroz fermentado.

A ascensão desses destilados pós-categoria ocorre num momento em que as destilarias artesanais estão crescendo. No Reino Unido, o número cresceu 21% – de 170 em 2017 para 205 em 2018 – , enquanto o número de marcas registradas neste segmento atingiu o recorde histórico de 2.482 (fonte: RPC).

Fukano

4. Café sem fronteiras

A cultura do café vem se expandindo rapidamente para além dos mercados ocidentais. O da China deve apresentar uma CAGR (Taxa de Crescimento Anual Composta) de 11,3% entre 2019 e 2023 – com receita de $ 1,8 bilhão no ano passado.  Tendo em vista o crescente interesse dos consumidores chineses por café, a Starbucks abriu em Xangai a sexta unidade mundial de sua Reserve Roastery, loja conceito que propõe uma imersão nos melhores cafés do mundo. A primeira foi aberta em dezembro de 2018, em Nova Iorque, e já é um dos lugares mais visitados pelos turistas na cidade. Já o recém-inaugurado Xinzhai Coffee Manor, na província chinesa de Yunnan, combina hotel e museu do café com espaço para processamento, armazenamento, degustação e venda de grãos  locais.

Reserve Roastery, em Xangai

As exportações de café também aumentaram 8,1% de 2018 a 2019, cerca de 129,43 milhões de sacas, segundo a Organização Internacional do Café. Mas conforme o consumo global se expande, aumentam também as preocupações com a sustentabilidade. Com sede em Seattle, a start-up Atomo  respondeu com um café molecular sustentável feito sem grãos. “Ao replicar o sabor, o aroma e a sensação na boca, criamos um café com melhor sabor que, ao mesmo tempo, também é melhor para o meio ambiente”, afirma o cientista alimentar Jarret Stopforth, criador do produto.

5. Um sommerlier chamado algorítmo

Distribuidores de vinho com visão de futuro estão introduzindo sugestões de personalização em seus canais online. O Good Pair Days é um serviço direto ao consumidor que se autodenomina “uma experiência de varejo de vinho construída para a geração Netflix”. “Para cada garrafa, calculamos as chances de você amá-la”, diz Beto de Castro Moreira, cofundador e CTO da empresa. “Isso permite um nível de personalização e customização para os gostos de nossos clientes que só pode ser igualado no mercado atual a ter um sommelier pessoal.” Parcerias entre plataformas de gastronomia e vinícolas estão aproveitando a Inteligência Artificial para combinar vinhos com as receitas mais populares da internet. Em 2019, a Ste. Michelle Wine Estates – terceira maior empresa de vinhos premium dos EUA – juntou forças com o allrecipes.com para revelar um algoritmo que gera combinações de vinhos para cada uma das dicas do site. Os pares (vinho e receita) são vinculados diretamente a supermercados locais ou a parceiros online como Instacart e Amazon Fresh.

Good Pair Days

Alimentos

Seguindo o padrão dos último tempos, a comida em 2020 continua variada à medida que marcas e consumidores buscam novas experiências, sabores e produtos. O entretenimento continua a ser popular entre os clientes que buscam conceitos envolventes que promovam a descoberta de alimentos de diferentes culturas.

6. Chocolate Epicurista

Marcas de chocolate estão introduzindo novos perfis de sabor, ora inspirados nas preferências de gosto dos consumidores de mercados emergentes – ou criados especialmente para estes lugares. “Trata-se de uma indústria enorme, dominada pelo chocolate a granel produzido em larga escala por um punhado de grandes conglomerados. O lado especial do mercado é pequeno, mas o crescimento está começando a acontecer principalmente em países emergentes como China e Índia, que estão desenvolvendo o gosto pelo chocolate”, afirma Phil Landers, fundador do selo londrino Land Chocolate.

Nas Filipinas, o fabricante Theo & Philo está ousando com receitas que levam caramelo toffee, molho de soja e pimenta-do-reino, enquanto a vietnamita Marou aposta nos vasto universo dos aromas. Produtos feitos com chocolate rubi também estão em alta. Desenvolvido com o grão de cacau homônimo,  possui um sabor adocicado de frutas vermelhas e foi lançado em 2017 pela Barry Callebaut. Desde então, tem crescido em popularidade para ser usado por empresas variadas: desde a Nestlé para seus KitKats, até a Prestat em sua coleção Ruby. Para os agricultores, a Barry Callebaut afirma que pode gerar renda mais alta e estimular processos mais sustentáveis. A ver!

Theo & Philo
Prestat e Kit Kat

7. Proteína da próxima geração

As empresas de tecnologia de alimentos são pioneiras na sintetização de proteínas vegetais que emulam produtos de origem animal em sabor, textura e perfil nutricional. Produtos de ‘carne’ e ‘laticínios’ feitos a partir de planta não estão apenas crescendo em popularidade – 16% dos americanos regularmente usam alternativas vegetais para derivados de animais -, como  também estão ficando cada vez mais semelhantes aos ‘originais’. 

A partir da prática de biohacking, a startup espanhola Nova Meat desenvolveu um processo para imprimir proteínas vegetais em 3D para se parecerem com carne ou frango. A Redefine Meat, empresa israelense de tecnologia de alimentos, recentemente serviu às cegas  sua carne plant- based para clientes de um sofisticado restaurante local. “Não podemos apenas imitar as fibras, mas também a maneira como a gordura e a água ficam entremeadas na matriz da carne’, explica Eshchar Ben-Shitrit, CEO e fundador da Redefine Meat.

Steak da Redefine Meat

8. Alimentos para bebês

Uma combinação de rápida urbanização, crescimento da classe média e aumento das mulheres na força de trabalho está impulsionando a demanda global por alimentos preparados para bebês, um mercado que deve ultrapassar os US $ 33 bilhões até 2025, de acordo com a Global Market Insights. Como resultado, os pais com falta de tempo procuram opções nutritivas e convenientes para os filhos, tendo como referências os perfis de sabor de que eles próprios gostam.

Sediada em Chicago, a Lil’gourmets cria comida orgânica para os pequenos com foco em vegetais e toques de especiarias. Produtos como o Organic Sweet Potato Curry e o Moroccan Butternut Squash são feitos com até 95% de vegetais e apresentam tabelas nutricionais mais complexas do que outros alimentos para bebês. “Queríamos oferecer aos pais e filhos refeições reais, ambiciosas e caseiras que sejam ótimas tanto no lar quanto em trânsito”, explica o fundador e CEO Shibani Baluja. Na mesma linha, a Kekoa Foods é pioneira em combinações culinárias para bebês com ervas, raízes e temperos tradicionalmente nunca associados a estes mini consumidores. Enquanto isso, a Little Pickins usa alimentos inteiros e ingredientes frescos para fazer finger foods bem temperadas e divertidas para as crianças.

Lil’gourmets

9. Hospitalidade caseira

Para ocasiões especiais (e tempos de pandemia), novos serviços de hospitalidade estão facilitando experiências de alimentação em ambientes caseiros. De talheres a flores frescas, a americana Social Studies oferece ainda toda a cenografia que é entregue direto na porta do consumidor. Toda essa curadoria tem como objetivo reunir as pessoas em ‘uma mesa de cada vez’. A start-up Supper Club Resident mescla experiências gastronômicas com a intimidade de uma refeição caseira. “A Resident não está centrada apenas na comida, mas no espaço que a cerca. Uma casa facilita na configuração de um ambiente mais acolhedor e caloroso, que é o que queremos criar para os nossos clientes”, disse o fundador Brian Mommsen. Levando o conceito ainda mais longe, a empresa recentemente trabalhou em parceria com o desenvolvedor do 475 Clermont, um novo complexo residencial em Nova Iorque. Os habitantes têm acesso a chefs que moram no prédio e preparam um jantar de seis pratos com combinações de vinho por mês. A iniciativa permite que os cozinheiros construam relacionamentos com os vizinhos, ao mesmo tempo que promove interações entre os demais habitantes do condomínio.

Experiência da Supper Club Resident

Turismo e Hospitalidade

A vida frenética no século 21, que desembocou num período de pausa obrigatória causada pela pandemia, está levando a uma revolução marcada pelas viagens lentas, mais conscientes e que incluem elementos de autoaperfeiçoamento. Com isso em mente, bibliotecas de hotéis, destinos despovoados e passeios turísticos estão ganhando popularidade. Com as emissões de carbono cada vez mais na pauta e os consumidores começando a boicotar as viagens aéreas, as experiências de staycation estão cada vez mais sofisticadas.

10. Staycations em alta  

Com a pandemia boicotando grandes deslocamentos, e as emissões de carbono na cabeça dos viajantes – a Organização Internacional de Aviação Civil estima que as emissões de voos globais sejam 70% maiores em 2020 do que em 2005 – há um ressurgimento do mercado doméstico de viagens, que apresenta ofertas cada vez mais sofisticadas e diversas. 

De acordo com a Sifo, quase o dobro de suecos optaram por viajar de trem em vez de voar, passando de 20% para 37% entre janeiro de 2018 e junho de 2019. No Reino Unido, o Travelodge descobriu que 69% dos britânicos planejavam passar as férias anuais de verão de 2019 no Reino Unido –  eram 57% em 2018.

O aumento do interesse pelo turismo local (staycation) também está levando a uma nova onda de hotéis nos EUA. Resorts americanos de alto luxo como Blackberry Farm e Post Ranch Inn estão criando experiências especiais para hóspedes que chegam por transporte terrestre. “Estamos vendo uma demanda real entre clientes americanos ricos e bem viajados que sempre priorizaram os destinos internacionais”, diz Sam Highley, fundador da All Roads North, empresa de turismo de luxo. No Rio de Janeiro, hotéis como o recém-aberto Arpoador apostam em mix de ofertas totalmente pensadas para os cariocas, como passeios de barco com piquenique, diárias com check out estendido e estrutura que propicia e estimula a prática de ‘hotel office.

Post Ranch

11. Refúgios literários

As páginas impressas estão rapidamente roubando o protagonismo das grandes TVs de última geração como principal oferta de entretenimento de muitos hoteleiros. No University Arms, em Cambridge, 12 suítes têm cada uma a sua própria biblioteca. O Gran Hotel Inglés (Madri) conta com uma curadoria literária da prestigiada editora Zenda.

University Arms

Incentivar a leitura está muito associado a uma hospedagem de bem-estar. O grupo de hotéis Utopian está recomendando a seus hóspedes que leiam como uma pausa na conectividade constante, unindo forças com o aplicativo de atenção plena Headspace e a com livraria Heywood Hill, de Londres, para criar listas de leitura customizadas. O eco resort Soneva Fushi, nas Maldivas, se associou à Ultimate Library, uma empresa especializada na criação de coleções literárias para resorts de luxo.  “Estes hóspedes são pessoas educadas e questionadoras que querem relaxar e se afastar um pouco do mundo lá fora, ao mesmo tempo em que refletem sobre si mesmas”, diz Philip Blackwell, fundador da Ultimate Library.

Gran Hotel Inglés

12. Turismo Desacelerado

Nos Estados Unidos, 60% dos viajantes acreditam que a superlotação terá um impacto significativo sobre os destinos que escolherão visitar nos próximos cinco a 10 anos (fonte: MMGY Global). Em resposta, as estatísticas já estão sendo usadas para direcionar os turistas para locais menos lotados, como o centro cultural Magasins Généraux, em Paris, e os arquitetos Snøhetta com suas propostas de ‘viagens desaceleradas’ nos Alpes austríacos. “A ‘viagem lenta’ está para a hospitalidade como os aplicativos de meditação estão para nossas vidas. Tudo isso faz parte de uma reação contra o turismo de pacotes, massificado e com obsessão pelo Instagram “, diz Justin Francis, CEO da agência Responsible Travel.

Destinos desacelados dos arquitetos Snøhetta

Caminhadas também estão ganhando em popularidade, já que os viajantes cada vez mais procuram voltar para a natureza e reduzir suas pegadas de carbono. A On, marca conhecida por seus tênis de corrida urbanos, lançou uma linha de botas para trilhas, que são 35% mais leves do que as similares no mercado, e abriu uma cabana pop up no vale de Engadine, na Suíça. Enquanto isso, a Reebok lançou uma coleção de tênis e roupas projetadas especificamente para jovens trekkers.

Fonte: Future Forecast 2020

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