Por Alice Lutz

Como falar da Bahia, do acarajé, do bobó, do abará, do caruru e da moqueca sem se deixar invadir pelo azeite de dendê? Como falar de Brasil? Todas as vezes que reflito sobre o abandono e a falta de interesse público e humano em culturas, acabo tentando alcançar o que está por trás do termo agricultura. Afinal, esta é uma cultura que tenho fortemente ligada a mim. Agricultura, por sua etimologia, envolve a cultura relacionada à terra, ao cultivo. Tem a ver com perpetuar cultura usando a terra. Ou pelo menos é assim que eu a percebo.

O dendê é conhecido por sua cor de ouro, e basta um fio dele para tudo mudar ao redor. Ao que tudo indica, foi através dos escravizados vindos de África, que conhecemos o dendê e começamos a cultivar sua palmeira no Brasil, ainda no século XVI – mais precisamente, nas regiões Norte e Nordeste, tendo hoje o estado do Pará como maior produtor. De sua amêndoa vem o óleo de palmiste, e de sua polpa avermelhada, o azeite de dendê, também conhecido como óleo de palma.  Ele é responsável por perfumar e fazer brilhar os tão famosos pratos da culinária baiana, que brotam nas cozinhas de oferenda das religiões de matriz africana e alimentam as festas e suas cintilantes danças do axé. Também empresta suas propriedades à indústria de cosméticos, de produtos farmacêuticos e até à produção de biocombustível.

Os gigantes dendezeiros podem passar de 15 metros de altura, e é por essa razão que a coleta de seus frutos é feita de forma bastante artesanal. Depende de pessoas que aprenderam com seus mais velhos essa arte e sabem lidar com o manejo do dendezeiro. Pessoas que vêm há anos alertando para a importância de investimento em tecnologia, ampliação e renovação dos coqueiros-de-dendê. Não só por questões climáticas relacionadas à baixa luminosidade nas plantações, que afetam diretamente o cultivo, mas também por falta de incentivo e investimento nessa cultura, vemos há anos a produção sofrer cada vez mais. O incentivo econômico e social ajudaria, e muito, a preservar a dignidade dos que trabalham com dendê e, por consequência, viabilizar a perenidade das plantações e a preservação da biodiversidade. A má notícia é que, na contramão de todas as linhas de pensamento e construção de conhecimento pautadas pela sustentabilidade sócio-ambiental, os governos brasileiros seguem apostando cegamente no agronegócio predatório e nos cultivos baseados no desmatamento e na monocultura.

produção artesanal de azeite de dendê

Nos últimos meses, recebemos mais uma vez notícias desanimadoras sobre a escassez do azeite de dendê no Brasil. Nosso chão tem grande potencial para o cultivo deste fruto e vem observando a queda na produção ano após ano. Os efeitos dessa situação extrapolam o campo material e econômico como commodity. Não esqueçamos que o Brasil carrega a força ancestral da herança africana, e o dendê é parte indissociável dela. Que esses Brasis são formados por pessoas. Pessoas que, como baús valiosos, guardam tesouros em mãos calejadas e mentes já cansadas de tanto lutar por manter viva a lida digna de trabalhar com o campo. E assim, fazer sobreviver a nossa história. Acho importante ressaltar que falamos aqui da escassez de um fruto que é abundante. Mas falta inteligência, humanidade no trato.

  • Azeite de dendê na culinária nordestina

Foi na Bahia, há mais ou menos 2 anos, que tive a oportunidade de ver, tocar, colher e macerar o fruto do dendê pela primeira vez. Desde então, venho estudando e tenho como missão produzir o nosso próprio azeite para uso no terreiro. Por ter sido lá, no terreiro Ilê Axé Oyá, que me envolvi de maneira mais forte com este fruto, peço licença para incluir aqui uma fala de minha mãe, Ialorixá Nivia Luz sobre a importância do dendê:

O azeite de dendê, ou epô pupa em iorubá, é um ouro na nossa tradição. É deste líquido iluminado que temperamos muitos dos nossos alimentos, que ofertamos aos nossos ancestrais, que fazemos rituais e compartilhamos da boa mesa. É também da tradição do dendê e da sua árvore que tudo se aproveita. Da sua palha extraímos a nervura para a confecção do xaxará (cetro sagrado) do orixá Omolu; das folhas do dendê que fazemos o mariô, cujo propósito é a proteção das casas e templos. É desta ancestral raiz que temos um dos mais completos alimentos afro-brasileiros. Na nossa tradição, crescemos aprendendo a respeitar a natureza e a amar as árvores como o dendê, que nos ofertam muitas riquezas. Ela é sagrada, conta a história das tradições de matriz africana, ou seja, da história negra do Brasil”.

Entender a importância do axé passa por compreender a importância de querer ser Brasil, e é urgente que o Brasil se interesse pelo Brasil. Estamos queimando bibliotecas enraizadas na terra e, com elas, os que ainda sabem ler os livros em semente. Vivemos crises relacionadas à cultura e à preservação da nossa história alimentar. Devemos valorizar alimentos como o dendê, que brotam em palmeiras e, na cor alaranjada, desenham a nossa origem bordada de África. Mas nosso país parece não enxergar a urgência dessa mudança de mentalidade. A produção do óleo de Palma é, aqui, uma ferramenta de importância histórica e cultural que elegi, não por acaso, para servir como alerta a essa reflexão. Hoje, além de exportarmos parte de sua produção, também por muitas vezes importamos para suprir o nosso próprio consumo interno. Vivemos um jogo de tabuleiro onde somos como peças humanas, reféns de um sistema que tem por último interesse, ou talvez de fato nem o tenha, tratar com dignidade a terra, o planeta, a história, a biodiversidade e a nossa sobrevivência.

Foto: Ayrson Heráclito. Obra Ofá.

Como brasileira, não sei o que seria da minha existência sem o sabor e o perfume do dendê invadindo a minha alma ao adentrar em terras soteropolitanas. O que a Bahia carrega em perfume sacode a poeira purpurinada da história de um Brasil que merece e precisa brilhar.  Olhar para a situação atual do dendê nos ajuda a refletir sobre todas as outras questões que enfrentamos na luta para que a indústria e o governo entendam a importância e o valor enorme de manter uma árvore enraizada em terra viva de pé. O poder cultural e econômico que o cultivo do dendezeiro carrega é algo que precisa ser compreendido. Com respeito e valorização, é possível lucrar dialogando com o fortalecimento da agricultura familiar e desse Brasil profundo que tanto tem a nos ensinar. É sobre nos unirmos por terra e raiz, reivindicando a tecnologia para sermos uma rede forte e capaz de construir um futuro possível, que está neste chão brasileiro que hoje arde em chamas. O mercado fomenta o desinteresse pela informação, e por ganância, nos afasta da raiz. Quanto mais desinformados estivermos, menos engajados estaremos na exigência por mudanças. E é bem aí neste espaço por onde passa o vento que precisamos, enquanto sociedade, entendermos de uma vez por todas a importância de nossos papéis como parte do coletivo. Ignorar a natureza das nossas escolhas e não refletir sobre o quanto nossas ações influenciam o todo é deixar de enxergar nossa origem. É abandonar o chão no qual fomos paridos. O dendê é só mais um destes perfumes encharcados de Brasil que vamos deixando escorrer por entre os dedos.

*Alice Lutz é cozinheira, agricultora, empreendedora, diretora e eterna aprendiz à frente da marca Maravilhas São José (@maravilhas.saojose).

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