Pandemia impõe novos formatos e fortalece pequenos produtores  no Brasil 

De março para cá, com o recrudescimento da pandemia, assistiu-se a uma união e mobilização inéditas pelo comércio local. Mercados e estabelecimentos de bairro, restaurantes e bares, enfim, várias iniciativas foram organizadas para colaborar com a sobrevivência dos pequenos e médios comerciantes. De crowdfunding e vendas de experiências antecipadas a incentivos da sociedade para priorizar o entorno em detrimento de grandes redes. Mas com o abaixar de portas de todo o setor de food service e a drástica diminuição das feiras livres, como ficaram os pequenos produtores do campo? 

Muitos deles, a exemplo da Manacá Orgânicos – fazenda localizada em Teresópolis (RJ) – , já estão aprendendo a se ressignificar com êxito neste novo contexto. “Mudou muita coisa, existe um antes e um depois. Os restaurantes deixaram de comprar, mas tivemos um impacto positivo muito forte no canal virtual, a demanda através do delivery cresceu muito. Tivemos que alavancar toda a produção para dar conta.  Nossa presença foi valorizada durante a pandemia,  as pessoas têm mostrado muita solidariedade”, diz Carlos Wagner, um dos fundadores da Manacá, que produz mais de 60 variedades de produtos. As vendas são feitas pelo site próprio, ou através da Sacola Virtual, o e-commerce da Junta Local – coletivo e feira de pequenos produtores do Rio e de São Paulo. Na contramão do pessimismo que vem permeando o país em meio à maior crise sanitária da história, Wagner festeja um saldo de acontecimentos positivos neste período. 

“Houve um fortalecimento da relação com os nossos clientes e a chegada de novos. Além disso, eles passaram a fazer pedidos para toda a família (pais, filhos…), o que não ocorria antes. Aumentamos também a nossa rede de parceiros para oferecer mais opções para os clientes. Estamos esperando a retomada e acreditamos que sairemos fortalecidos deste momento”. 

Manacá Orgânicos

Outra que faz uma avaliação positiva dos últimos meses é Manuella Stefani, à frente do Sítio Córrego Alto (em Trajano de Moraes, interior do Rio). Após um 2019 muito difícil, ela e o parceiro Tomé Lavigne decidiram empreender uma mudança radical. Antes da pandemia, demitiram os dois funcionários da propriedade e iniciaram uma transição de cultivo de orgânicos para produção de leite, sob orientação do projeto Balde Cheio (Senai), com implementação ainda em curso. “Quando começou a quarentena ficamos bem desesperados,  já que a participação em feiras, depois que enxugamos nossa estrutura, salvava nosso mês. Mas, para nossa surpresa, a demanda por entregas em casa aumentou muito. Estamos escoando com muita rapidez nossas últimas colheitas em formato de cestas através de intermediários parceiros. E agora estamos focados no novo projeto, vamos começar a tirar leite ainda este semestre. O plano é processar e produzir queijo com a maior parte da produção e ter uma boa saída. O retorno das feiras também é muito importante”, avalia Manuella.

Em São Paulo, Susana Fonseca, diretora da  Coopafasb (Cooperativa Agrícola Familiar de Seta Barras) e do site Kintal Orgânico também comemora. “Nossas vendas dobraram. De 30 cestas semanais, agora entregamos mais de 60”, afirma ela. 

Mesmo selos maiores, como a Korin, sentiram aumento substancial na procura.  Fornecedora de ovos e aves para grandes cadeias de supermercados, a companhia escoa a produção de 41 criadores de frangos e cinco produtores de ovos de Ipeúna (SP). Em 2010, entretanto, a empresa inaugurou lojas pelo sistema de franquias, que somam atualmente 11 unidades. Quando a pandemia começou, os pontos de venda passaram a atender no sistema de delivery. “O crescimento médio foi superior a 50%”, diz Walter Ferreira Caetano Júnior, gerente de varejo da Korin. 

Ao menos três fatores justificam o aumento da demanda do consumidor final por esse novo tipo de delivery. O primeiro está relacionado à saúde: com a pandemia, as pessoas estão mais propensas a se manter saudáveis e, como consequência, tendem a comprar produtos orgânicos. Outro grande estimulador de vendas é o sistema de entrega. “Não precisar se deslocar e ir até um mercado  é uma grande vantagem”, pondera Carlos Wagner, da Manacá. Por fim, solidariedade com os pequenos e senso de pertencimento com o que é local têm aflorado como nunca na filosofia de compra de muita gente. Que seja só o começo.

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