Durante o pico da pandemia na Europa, muito se especulou sobre novos formatos de restaurantes e adaptações necessárias para atender às novas exigência do público. Enquanto isso, chefs e empresários entraram em luto coletivo para defender seus direitos, proteger suas empresas e traçar a reabertura dos empreendimentos. De forma geral, o governo de Emmanuel Macron mostrou-se solidário e assumiu os custos dos trabalhadores, bem como promoveu um pacote de medidas públicas consideradas eficazes pelo setor. O próprio presidente envolveu-se nas conversas com os chefs mais célebres, que estavam desesperados. Nos bastidores, muitos empresários lutaram também com suas seguradoras para receber o apoio devido. Uma dos entreveros que tiveram maior repercussão foi o de Stéphane Manigold, proprietário de endereços gastronômicos de prestígio da capital francesa, como Substance, Contraste, Maison Rostang e Bistrot Flaubert. Como muitos outros,  dinâmico empresário não se deixou intimidar com a multinacional AXA e entrou em litígio na justiça com a seguradora que se recusava a pagar indenizações. Levou a briga até a mídia, e sua estratégia de envolver a opinião pública através de inúmeras aparições nos jornais e na televisão para pressionar a AXA finalmente deu certo. Um sabor de vitória no meio do amargor dos dias anteriores.

A incerteza que reinou durante muitas semanas – até o governo francês liberar a reabertura dos bares e restaurantes – já ficou para trás. Medidas como distanciamento das mesas, capacidade reduzida do salão, uso obrigatório de máscara pela equipe, entre outras, foram as diretrizes adotadas. Poucos dias depois da reabertura oficial, dia 2 de junho, já se percebia que o novo normal seria exatamente como era antes, salvo alguns detalhes efêmeros. Não que os franceses estejam menosprezando a pandemia, mas apenas estão convencidos de que fizeram sua parte ao respeitar estritamente o lockdown e fomentar uma sensação de união e empatia coletivas. Ao passear pelas ruas de Paris, percebe-se que os cafés já estão lotados, e os restaurantes  ocupando todas as calçadas; Com permissão para todo o verão, as mesas tradicionalmente apertadas fingiam ter um pouco mais de espaço, e as máscaras rapidamente caíram.

Fato é que os velhos e arraigados comportamentos são mais fortes do que qualquer lei ou decreto. Os franceses respiram comida e cultura; adoram se encontrar todos os dias depois do trabalho para tomar um vinho ou dividir um prato. É claro que a pandemia deixou algumas lições que, espera-se, possam contribuir para uma  maior consciência do papel da alimentação na integridade física das pessoas. No que se refere à saúde mental, os parisienses decretaram que não viverão sem compartilhar comida na mesa, nem brindar alegremente com uma taça de vinho. 

Paris volta a fechar 

Entretanto, a alegria de locais e turistas não durou muito. No dia 6 de outubro, a cidade foi colocada em alerta máximo novamente para a Covid-19, o que significou o fechamento forçado de bares e restaurantes por duas semanas e, na sequência, a adoção de novos (e rígidos) protocolos sanitários para continuarem abertos. E assim seguem por tempo indeterminado, ou até que a pandemia por lá dê um novo refresco como aconteceu em junho. 

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