Multinacionais x startups, ultraprocessados x clean label: entenda a indústria plant-based made in Brazil.

A ONU já estima que será necessário produzir 70% mais carne para alimentar a população mundial, que deve chegar a mais de 10 bilhões em algumas décadas. Quando observamos os métodos de produção agressivos e pouco éticos da grande indústria animal, a conclusão é óbvia: trata-se de um cenário absolutamente (in)sustentável.

A filosofia plant-based vem ganhando força e permite a entrada de novos players no gigantesco mercado da alimentação no Brasil. Enquanto a maioria dos brasileiros continuam valorizando a cultura de consumir carne cotidianamente ou com bastante frequência – os tradicionais churrascos aos domingos são um reflexo desse aspecto arraigado na nossa sociedade -, vários consumidores estão enxergando uma necessidade real e urgente de mudança de comportamento alimentar.

Nos Estados Unidos, carnes, laticínios e ovos já ganharam sua versão ‘à base de plantas’ há alguns anos. No Brasil, segundo maior exportador mundial de alimentos em volume – são 250 milhões de toneladas de grãos, boa parte disso em soja e milho – essa tendência vem crescendo, e várias companhias consolidadas e start-ups estão investindo e apostando nesse consumidor, um nicho cada vez mais consciente e que busca reduzir, ou eliminar, o consumo de produtos de origem animal.

O pilar fundamental comum a todas estas empresas é a tecnologia. Leia-se altíssima tecnologia.  Afinal, sintetizar carne e outros itens de matriz animal a partir de vegetais não é algo simples e corriqueiro. Neste sentido, o futuro da alimentação envolve inovação e muito investimento. 


Majors x Startups

Por diversos motivos, as gigantes da alimentação demoraram para acordar e acabaram abrindo espaço para as pequenas marcas e startups focadas em inovação (foodtechs) e um marketing eficiente. 

Um bom exemplo é o mercado de hambúrgueres vegetais: a startup brasileira Fazenda Futuro chegou na frente com o seu Futuro Burger, liderou o mercado de carne vegetal em poucos meses – com muita mídia e muito burburinho -, deixando para trás gigantes como Seara e Superbom, que vieram na esteira e com um hiato que as deixou como coadjuvantes neste segmento.

Para não trilhar o mesmo caminho do atraso, a multinacional Danone  já vem investindo pesado  e comprando pequenas marcas através do seu grupo Wave – selo de laticínios e bebidas de origem vegetal – para tentar recuperar o tempo e fatias de mercado perdido.

Embora a maioria desses produtos ainda tenha um posicionamento de preço mais elevado se comparado a produtos tradicionais – afinal, tecnologia e inovação têm seu custo, sobretudo quando o mercado ainda é nichado -, o grande objetivo é aproximar cada vez mais o consumidor geral, tornando estes produtos mais acessíveis para o grande público. O desafio é convencer as pessoas de que um alimento vegetal industrializado tem o mesmo sabor dos de origem animal e, ao mesmo tempo,  causa menos impacto ao meio ambiente. Mas ainda há uma outra questão que precisa ser discutida: muitos destes produtos são ‘animais free‘, mas continuando sendo ultraprocessados.

Ou seja, aliviam a barra do planeta e dos animais, mas continuam sendo verdadeiras bombas para a saúde humana. Trata-se, portanto, de um paradoxo primordial que muitas destas empresas, sobretudo as gigantes, precisam superar. Porque, em paralelo, várias outras, em geral menores, vão ganhando mercado com a bandeira clean label: as marcas de ‘rótulos limpos’, que produzem alimentos naturais, sem ‘bicho’ e livre de aditivos químicos. Taí o grande desafio da indústria alimentícia do amanhã: conciliar produtos saudáveis e com impacto positivo para o planeta que sejam atrativos – em termos de preço e sabor – para o público em geral.


Conheça algumas  marcas e projetos que apontam essa tendência.

A Fazenda Futuro foi pioneira ao lançar o Futuro Burger, que revolucionou o mercado brasileiro. Com 115g e 15,8g só de proteína, o hambúrguer é feito a partir da proteína da ervilha, proteína isolada da soja e do grão de bico, além de beterraba para dar a cor de carne mal passada. Essa foodtech brasileira – que atualmente produz também carne moída e almôndegas – tem como fundador Marcos Leta, o mesmo criador da marca de sucos Do Bem.

O N.ovo, da granja Mantiqueira, é um produto à base de plantas – produzido  partir da proteína e amido de ervilha e linhaça – lançado para ser um substituto do ovo.

A Tal da Castanha foi a primeira marca brasileira de bebidas vegetais clean label, à base da castanha de caju e outras oleaginosas. Todos os produtos são livres de lácteos, soja, glúten e aditivos.

A NoMoo é uma Foodtech brasileira que produz laticínios (queijos, manteiga e iogurtes) e maionese plant-based.

A Not Co é uma startup chilena que chegou ao Brasil em maio deste ano, com seu primeiro e mais importante produto: a ‘não-maionese’. Feita à base de grão de bico, ela é fruto da mescla entre inteligência artificial e gastronomia da mesma forma, também saíram o sorvete feito de ervilha e o hambúrguer de cacau e beterraba.

Fontes:

https://gfi.org.br/wp-content/uploads/2020/06/GFI_2020_IndProtAlternativas.pdf

https://www.embrapa.br/visao/o-futuro-da-agricultura-brasileira

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