Tecnologias trazem soluções de embalagens retornáveis para frear o aumento preocupante do descarte de plástico. 

O que já era uma enorme encrenca antes da pandemia, cresceu exponencialmente como o vírus. Com o aumento de mais de 60% nos pedidos de comida em casa, multiplica-se de maneira preocupante a presença de embalagens plásticas nos lares do Brasil e, o pior, aonde elas vão parar depois de descartadas. O mar do Rio de Janeiro bem sabe, dada a quantidade de plástico boiando pelas praias da cidade. Esses materiais já eram uma grande preocupação  para a engenheira de produção Júlia Berlingerique. À medida que passou a recorrer com mais frequência aos serviços de delivery, ela se sentiu muito incomodada com a quantidade de lixo gerado a cada pedido. Do incômodo, veio a necessidade de buscar uma solução para o problema que não funcionasse apenas para ela, mas que fosse escalável, possibilitando que mais pessoas diminuíssem o descarte. Julia deixou o emprego e passou a se dedicar à criação de potes que pudessem ser (re)utilizados em grande escala, diminuindo a quantidade de resíduos gerados pelas entregas.

“Algumas vezes, eu ia até restaurantes perto de casa com meu potinho (desses que a gente pega da mãe e leva bronca quando não devolve) para levar a comida para a minha casa. A repetição do ato me fez pensar que bom seria se o pote já estivesse lá no restaurante”, explica Júlia. 

Nasceu, então, a re.pote, uma ideia que propõe o uso de potes reutilizáveis e retornáveis para serem usados no delivery. “A proposta do re.pote é ser um recipiente que transforme a maneira de realizar as entregas de alimento ao reduzir os resíduos gerados de uma forma inteligente, prática e sustentável”, pontua a engenheira de produção.

Crédito: Samuel Antonini

Para desenvolver o projeto, Júlia procurou a Poli Júnior – empresa júnior de Engenharia da USP – para desenvolver a solução a partir da ideia que tivera. Foram realizadas pesquisas para entender qual seria o material ideal para a produção do pote, já que ele deveria ser resistente a variações de temperatura, garantindo a reutilização do recipiente na casa do consumidor, tanto no freezer quanto no microondas, por exemplo. Seria importante também que o produto fosse constituído de material reciclado. Entretanto, seria um grande desafio, considerando que tal substância terá contato direto com alimentos e deverá estar dentro das normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Após várias rodadas de pesquisas com a Poli Júnior, chegou-se à solução ideal de fabricar o recipiente por injeção plástica com duas camadas. “A camada externa seria feita de polipropileno reciclado, material barato que atende a todos os requisitos desejados, além de ser facilmente encontrado no mercado. Já a parte interna – que estaria em contato com os alimentos – seria uma fina camada de polipropileno virgem, que apesar de não ser reciclado, não faz com que o produto perca sua marca ecológica”, explica Lívia Leite de Almeida, diretora de gestão de pessoas. A Poli Júnior também entregou uma pesquisa de mercado focada na potencial aceitação  do produto e do modelo de negócio entre restaurantes e clientes de delivery.

“As respostas do estudo me surpreenderam e serviram de motivação, porque pude enxergar que 70% dos estabelecimentos entrevistados estavam muito interessados no produto e dispostos a pagar um valor maior por ele”, ressalta Júlia.

A pesquisa aplicada pela empresa júnior constatou também que grande parte dos restaurantes entrevistados estava descontente com a quantidade de resíduos gerados pelas entregas. Com isso, a equipe elaborou três modelos de potes diferentes e, com ajuda de uma impressora 3D, conseguiu entregar um protótipo para Júlia iniciar o projeto, que está em fase de implementação. Atualmente, além dos R$ 10 mil que a engenheira investiu no negócio próprio, é necessário um investimento mínimo de R$ 15 mil para a comercialização efetiva do re.pote.

E não para por aí…

copo biodegradável feito de mandioca

A mandioca comprova toda a sua versatilidade ancestral também como matéria-prima para embalagens. Nascida no Centro de Raízes e Amidos Tropicais da Unesp de Botucatu (SP), a OKA Bio – empresa de pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia – produz embalagens biodegradáveis feitas a partir de fécula do aipim, água e fibras naturais em vários tamanhos e modelos. Os produtos podem ser descartados em qualquer bioma, uma vez que se degradam naturalmente e podem servir de compostagem para a terra, ração animal ou ser reciclados para o processo produtivo. Há opções de copos, bandejas, caixas de ovos, colheres e outros recipientes.

Ainda nesta seara, você já ouviu falar dos bioplásticos? Conhecidos também como biopolímeros, os plásticos ecológicos podem ser produzidos a partir de fontes naturais como a cana de açúcar, o milho, a batata e a beterraba, por exemplo. A principal diferença dele para o plástico comum é que as versões tradicionais demoram até 500 anos para se decompor na natureza, enquanto o bioplástico leva cerca de 18 semanas.

Por isso, fabricantes estão aderindo cada vez mais a estas embalagens que não utilizam petróleo em sua composição. O bioplástico  pode ser manipulado no mesmo maquinário usado para a versão de plástico convencional, o que facilita o processo de produção. Outro ponto forte é que essas embalagens são ótimas para envasar qualquer tipo de alimento e bebida:  possuem maior maleabilidade e boa capacidade de vedação com tampa, atributos fundamentais para o delivery.  

Outra opção é a logística reversa com potes de vidro. Insatisfeita com o descarte de plástico, a cozinheira e empresária carioca Alice Lutz, à frente da marca Maravilhas São José, há alguns anos pesquisa novas categorias de embalagens. “Em eventos e feiras, optei pelos  recipientes  à base de mandioca, como copinhos e cumbucas, para servir comida na hora sem a necessidade de vedação. No delivery, eu comecei com plástico e, depois de muita investigação, migrei para o bioplástico, que é uma boa opção, mas não muito interessante para congelar, não é tão ergonômico no freezer. Atualmente, por várias razões, eu optei pelos potes de vidro. Esteticamente, acho bacana o recipiente ser transparente, o cliente poder admirar a beleza e o colorido dos ingredientes. E através da logística reversa, o vidro gira na minha operação e retorna. Tanto para congelar quanto financeiramente, é a opção que melhor me atende hoje.”

embalagem biogradável

Mandioca, bioplástico, re.pote, vidro… Que apareçam cada vez mais alternativas para estancar, de uma vez por todas, o violento despejo de plásticos descartáveis no planeta.

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